O fenômeno climático ‘El Niño’ altera drasticamente o habitat de animais peçonhentos ao provocar calor extremo e chuvas intensas, forçando escorpiões, aranhas e serpentes a abandonarem seus esconderijos naturais em busca de locais secos, frescos e seguros.
Esse cenário empurra esses animais em direção às áreas urbanas, elevando, de forma preocupante, o risco de acidentes domésticos e exigindo das pessoas cuidados redobrados com a limpeza de quintais e a vedação de frestas e ralos.
De acordo com os dados divulgados pelo Ministério da Saúde (MS), centenas de milhares de casos de ferroadas são notificados anualmente no Brasil, com pico nos meses quentes.
Espécies como o escorpião-amarelo proliferam rapidamente em cidades devido à facilidade de reprodução. Períodos de calor e umidade também aumentam registros de picadas de animais como cobras, aranhas e abelhas.
A estudante Bruna Veronez, que mora no bairro Barro Vermelho, em Natal, relata que escorpiões têm aparecido com mais frequência nesse período. “Normalmente, eles vêm pelo ralo do banheiro, por isso eu sempre o mantenho fechado. Faço dedetização a cada seis meses, faço limpeza regular no quintal e também cuido para controlar as baratas, pois elas são o principal alimento dos escorpiões”.
Uma pesquisa publicada na Revista Ciência Plural, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGSCol/UFRN), mostra que acidentes envolvendo animais peçonhentos constituem um problema de saúde, sendo um agravo tropical negligenciado. Segundo o estudo, entre 2018 e 2022, na região Nordeste, foram registrados 478.240 acidentes com animais peçonhentos, com maior incidência em 2022. A maioria dos casos ocorreu em mulheres (50,25%), pardos (67,35%), na faixa etária de 15 a 39 anos (40,43%) e com escolaridade inferior a oito anos (30,85%). Escorpionismo foi o mais comum (72,13%), afetando principalmente membros superiores (49,40%) e fora do contexto de trabalho (77,97%). A maioria dos acidentes foi leve (83,44%), sem necessidade de soroterapia (78,88%) e com evolução para cura (87,63%).

A professora Juliana Silva, do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas (ACT) da UFRN, afirma que os locais onde se encontram animais peçonhentos podem variar de acordo com a espécie, mas, de modo geral, eles procuram ambientes que ofereçam abrigo, alimento e condições favoráveis de temperatura e umidade.
“Nas áreas urbanas, os escorpiões merecem atenção especial. Eles podem se abrigar em locais escuros e pouco movimentados, como entulhos, pilhas de tijolos e telhas, madeira armazenada, caixas, frestas em paredes, rodapés, ralos, caixas de gordura e redes de esgoto. Em áreas rurais ou próximas a fragmentos de vegetação, é necessário considerar também o risco de encontro com serpentes. Elas podem aparecer em terrenos com vegetação alta, pilhas de madeira, pedras, entulhos, depósitos, galpões e locais onde haja presença de roedores. Nas regiões litorâneas, além dos mesmos cuidados com quintais, jardins, terrenos e materiais acumulados, deve-se ter atenção a áreas de vegetação, dunas e terrenos pouco manejados”, explica Juliana.

Prevenção e o que fazer o que fazer em caso de picada
Além disso, há uma série de medidas preventivas para evitar a presença de animais peçonhentos nessas áreas e ações caso sejam capturados. “Evitar acúmulo de entulho, folhas, madeira, telhas e materiais de construção; manter terrenos e jardins limpos; vedar frestas, rachaduras e passagens junto a portas e janelas; instalar telas ou dispositivos de proteção em ralos; controlar baratas e roedores; e examinar roupas, toalhas e calçados antes de utilizá-los, especialmente quando permaneceram guardados ou no chão”, orienta a professora.
Ela lembra que também é importante utilizar calçados fechados e luvas apropriadas ao realizar atividades de jardinagem, limpeza de terrenos ou manipulação de madeira, pedras e materiais acumulados. “Caso um animal peçonhento seja encontrado, a recomendação é não tentar capturá-lo com as mãos nem manipulá-lo. Deve-se manter distância e, quando necessário, acionar o serviço responsável pelo manejo desses animais no município”, reforça.
Em caso de acidente, procure uma das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do município para receber atendimento. Outras informações estão disponíveis no CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica do RN), com funcionamento 24 horas por dia para orientações sobre primeiros socorros e tratamento, pelos telefones 0800 281 7005 e (84) 98880-9155.
Fonte: Agecom/UFRN;
